comportamento

Bateu aquela vontade de mudar de vida?

No nosso cômodo mental, as prateleiras estão sobrecarregadas pelas nossas verdades e os corredores apertados pelos nossos apegos como se na nossa morada faltasse espaço para sermos nós
Foto: Pixabay

O sacolão do meu bairro é um ponto conhecido pelos bons preços e por ter boas opções de frutas e verduras. Por isso, o local sempre abarrotado de prateleiras, entre elas, de cebolas que pareciam subir pelas paredes, de verduras de folhas espremidas em um cantinho de pouca luminosidade e de corredores minúsculos disputados por clientes e carrinhos, não chegavam a ser, exatamente, um problema. Até que o mercado foi vendido para outro dono e uma transformação curiosa aconteceu: o mesmíssimo cômodo, de uma semana para outra, pareceu ter multiplicado seu tamanho. As prateleiras da área central do sacolão foram redistribuídas de forma a aumentar o espaço entre os corredores, as paredes foram pintadas com uma cor clara dando luminosidade para o lugar e os cantos “mortos” receberam atenção. Um freezer com laticínios foi colocado e na parede onde existiam cebolas empilhadas em formato de pirâmides foram ajustados os balcões de atendimento que receberam, nas partes inferior e superior, itens como ervas e damascos secos, nozes, palmitos e farinhas temperadas. No mesmo local de antes, agora há mais espaço e mais produtos. E, nós como clientes, nos sentimos mais livres e à vontade para comprar. Qual foi o milagre realizado no sacolão? Sem dúvida, a reflexão do proprietário sobre o espaço. Diante do novo negócio e com um olhar livre de vícios ou certezas, o repensou sem apego.

Por isso, fazer uma analogia entre esse comércio e a vontade de mudar de vida me pareceu inevitável: é comum passarmos anos habitando os mesmos espaços! Moramos no nosso corpo e mente e não há como nos “mudarmos” deles; residimos na mesma casa ou trabalhamos no mesmo emprego por anos. E, às vezes, apertados entre os nossos corredores mentais, sentimos que falta o local adequado para fazermos aquilo que gostamos, para sermos nossa melhor versão ou para que a nossa vida seja como sonhamos! O problema parece ser o lugar em que vivemos: o corpo que não se parece com o da mulher na TV, a mente que não se adequa à realidade ou a casa que não é como sonhei! Será que falta espaço ou falta coragem para mudar? Na nossa prateleira de “cebolas” empilhadas, deveríamos racionar o espaço ou repensar aquele canto?

Por vezes nosso lugar no mundo parece insuficiente e inadequado porque nos falta um novo olhar sobre nós mesmos. Nos apegamos às nossas crenças como se elas fossem boias salva-vidas jogadas para nós em alto-mar! Mulheres com 30 anos devem estar casadas ou em um relacionamento; aos 40 anos qualquer homem que se preze já tem sua casa própria; é necessário escolher uma profissão aos 18 anos para tentar o vestibular; na minha família ninguém nunca se divorciou ou mudar de profissão aos 35 anos é perda de tempo são alguns dos pensamentos – que mesmo bem escondidos na nossa mente – nos impedem de rever o nosso espaço no mundo! No nosso cômodo mental, as prateleiras estão sobrecarregadas pelas nossas verdades e os corredores apertados pelos nossos apegos. A diferença entre um comércio e a nossa forma de pensar está no fato de que não podemos vender nosso lugar no mundo e não há como transferir para um novo dono aquilo que nos é inalienável: nosso direito à plenitude, nosso espaço que deverá ser – corajosamente – repensado e renovado por nós mesmos frequentemente.

Mudar a vida para melhor começará sempre pelo nosso lado de dentro!

 

 

 

 

 

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