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Ferreirinha: o amigo do primo do Collor

Após longos 30 anos na mesma empresa, trocou bater o ponto por bater um papo e passava a tarde toda caminhando pela vizinhança, visitando os comerciantes e os aposentados
Foto: Shutterstock

Aposentado, abandonou as calças de cores sóbrias e os sapatos pretos por bermudas claras e chinelos de couro. Após longos 30 anos na mesma empresa, trocou bater o ponto por bater um papo e passava a tarde toda caminhando pela vizinhança, visitando os comerciantes e os aposentados - mais velhos que ele - para ocupar as longas horas vazias.  Sua vida andava em ritmo lento: as crianças crescidas já tinham filhos e a esposa ocupava o tempo entre a casa e os cursos que ela sempre inventava: de informática para “aprender a mexer no computador”, de bordado para aperfeiçoar a prática da mocidade e de meditação para acalmar os netos. Enquanto ela se orgulhava da agenda cheia, Ferreirinha se gabava do ócio. Dizia que queria ficar à toa até enjoar, e quando enjoasse, insistiria mais um pouquinho em não fazer, absolutamente nada, segundo suas próprias palavras.

A vizinhança não reclamava das visitas porque Ferreirinha era melhor que novela das oito: tinha sempre um causo novo, uma história antiga ou uma piada velha recontada de um jeito diferente. Tudo narrado no melhor estilo pescador em que os números eram sempre exagerados e as aventuras inacreditáveis! Se um dia havia achado uma mala com 150 mil reais, no outro, a mala tinha era 300 mil. No sítio em que passava os finais de semana, as três vacas magras se tornavam 10. Não se casou com a atriz Christiane Torloni porque ELE não quis e ela bem que insistiu; Collor era primo de um amigo seu de Alagoas, e por isso, não confiscaram a poupança dele em 1990; o passarinho que ele mantinha em casa bicava a janela dele todo dia às sete horas da manhã para acordá-lo, mas ele nunca conseguiu filmar porque a ave era tímida; tinha feito uma ponta no filme Dona Flor e seus Dois Maridos, em 1976, mas a cena foi cortada porque o ator Zé Wilker não ia com cara dele; falava para todo mundo que tinha se aposentado como diretor, mas foi gerente ad eternum na firma e contava que havia completado 62 anos, mas na carteira de identidade já contabilizava 68.

Vez ou outra, os coroas que batiam ponto no boteco da esquina faziam uma reunião maldosa, entre cervejas e almôndegas, para contar uns aos outros a última história do Ferreirinha. Diante dos impasses nas versões, decidiram anotar em um caderninho nomeado de “Prova dos nove” os detalhes mais chamativos de cada causo. Se para o Tiãozinho, o passarinho despertador era um canário-da-terra, para o Durval era uma calopsita. Se no sítio havia vacas, para o Bragança eram nove porque a décima havia morrido de repente, mas para o Lopes eram sete vacas, dois bezerros e um boi bravo. Assim eles diziam ter contado o Ferreirinha. A confusão logo se estabelecia! Uns já embriagados xingavam o Ferreirinha de velho mentiroso, mas os outros riam até as lágrimas correrem. E, enquanto o assunto preferido dos botequeiros corria solto, alguém menos bêbado avisava:

_Silênnnnnncio que o Ferreirinha está vindo aí!

Os coroas se calavam, o caderninho era empurrado para debaixo da mesa e o Ferreirinha, na sua simpatia mansa, iniciava a ladainha:

_Rapaz, lembra aquele amigo meu de Alagoas? Morreu e deixou umas vacas de herança pra mim. Agora estou apertado porque perdi a conta e já não sei dizer quantas eu tinha antes. Fiquei tão cismado com isso que pisei no meu passarinho e matei o coitadinho! Que Deus o tenha ao lado do Zé Wilker, aquele filho da mãe que não me deixou aparecer no filme!

 


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