Humor

Um litro de pinga e dois dedos de silêncio do Scania Jacaré

A saga
Foto: Reprodução

Às 6h23, quando ainda se ouvia os passarinhos cantando, o grunhido do bêbado rasgou o silêncio da testa ao pé. A voz de quem fala dentro de um cano batia nas janelas dos prédios vizinhos, enquanto ele contava ao vento o que estava fazendo para consertar o Scania Jacaré, estacionado na rua Maria Laudomira, em um dia que nenhum vizinho pode prever. O velho caminhão laranja era barulhento e truculento feito o dono bêbado, que teve a ideia genial de comprar o caminhão defeituoso para tentar consertá-lo com seus poucos conhecimentos.

Alguém abriu a janela e clamou por silêncio. Foi pior! O sujeito alcoolizado começou a gritar dizendo que estava na "calçada pública" e podia gritar o quanto quisesse.

Lá pelas tantas, chegou o reboque. O Scania Jacaré batendo a lataria, sem sair do lugar, e o bêbado vociferando palavras improváveis e puxando a própria gola de sua camisa polo surrada. 

Não eram 8h da manhã, quando a irmã do bêbado chegou para palpitar no serviço mecânico. Herdaram, os dois, a mesma cara de encrenca e a voz que parece de alguém gritando dentro dos canos. O diálogo que parecia de dois loucos, atiçou os cachorros, que estressados, começaram a latir. A sinfonia ficou completa: gritaria, latição, lataria batendo e motor rugindo. 

O casal que mora no apartamento em frente, começou a discutir por causa de um chá. O bebê da vizinha pôs se a chorar. A velha do 402 sentiu dores no peito. O aposentando desistiu da vitamina D, que tomava todas as manhãs, sentado na calçada. A moça de férias rogou uma praga nos dois, mas lembrou da mãe dizendo que o “inferno é aqui na Terra”; e decidiu tomar um ansiolítico.

Até que o Sol se foi, e o sujeito calou-se. Entrou para seu barraco, lavou-se com preguiça, xingou a mulher, comeu arroz e ovo frito, e bebeu mais um litro de pinga Corote. Às 6h15 do dia seguinte, ao abrir o portão enferrujado que dava para rua, pisou em algo grudento. Olhou para o chão e lá estava um rio de piche, a correr da calçada pra debaixo do velho caminhão, tomando conta de toda extensão do veículo. As Havaianas gastas colaram de tal forma que arrebentaram. Desequilibrou-se e caiu de bunda na poça ainda úmida. Não era possível dar um passo adiante. Tampouco fazer qualquer reparo que exigisse ficar debaixo da máquina. O homem, ainda bêbado, salivou de tanto ódio, enquanto o Scania Jacaré permanecia em indomável silêncio.

De uma janela distante, um vizinho, ainda com a barra da calça suja, resmungou, baixinho:
_O inferno são os outros e aqui ninguém canta de galo, seu sujeito atrevido!


Copyright © 2022 I Cris Mendonça. Um litro de pinga e dois dedos de silêncio do Scania Jacaré. Todos os direitos reservados.


LEIA TAMBÉM:

Ferreirinha: o amigo do primo do Collor
Farofa: a Miss Simpatia da mesa brasileira


Comentários
Cleber P. Silveira
Merecido! Vizinho barulhento de bunda no piche! hahahaha
Envie seu comentário
Os comentários são submetidos à avaliação antes da publicação. As mensagens de teor ofensivo ou preconceituoso não serão publicadas.
Você também pode comentar usando o Facebook