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O melhor lugar do mundo é onde a nossa paz mora

Trocamos os locais cheios de gente por casas cheias de nós, os volumes altos por nossa voz interior e essa mudança de comportamento, simplesmente, se relaciona com o que nos transformamos
Foto: Rietch/Pixabay

A mesa está molhada e com a ponta do dedo desenho, nas poças minúsculas, minhas pequenas alegrias íntimas: a fala inocente da sobrinha, a lembrança da infância brincando no rio e o frio na barriga provocado pelo primeiro amor. Distraída, contemplo as formas abstratas e ensaio um sorriso discreto, enquanto a panela de pressão rompe o silêncio da casa com o seu chiar. Lá fora, a terra ainda está úmida pela última chuva e as hortaliças molhadas parecem agradecer.

A vida, algumas vezes, reverbera a paz em suas banalidades como se os chinelos esquecidos na beirada da cama e as taças de vinho em movimento nos confidenciassem sortilégios. A casa torna-se, então, um repouso profundo de pensamentos. Alheios ao relógio, nos alternamos entre os filmes e os livros, alimentando a alma com os nossos pequenos prazeres.

Guimarães Rosa escreveu que “felicidade se acha é em horinhas de descuido” e não há como duvidar de um homem que enxergou tanta beleza na aridez do sertão. Nas nossas horinhas de contentamento, não há prazos a cumprir ou protocolos a seguir: apenas vivemos o prazer do ócio. Os raios de sol chegam na nossa janela por volta das 13 horas e a preguiça é curada com brigadeiro de panela.

Trocamos os locais cheios de gente por casas cheias de nós, os volumes altos por nossa voz interior e essa mudança de comportamento, simplesmente, se relaciona com o que nos transformamos.

A maturidade parece nos dizer, sem presunção, que o melhor lugar do mundo é o nosso lar e os objetos que nele contam a nossa história. Os quadros nas paredes, as rolhas de vinho na jarra de vidro, as fotografias nos álbuns, o moletom folgado e as nossas meias coloridas, o bibelô trazido de uma viagem, os CDs empilhados nas memórias da adolescência e as sempre-vivas no vasinho rosê.

Às vezes é gratidão, outros dias são calma na alma. Um dia sem sobressaltos. Um sábado sem agenda. Um reencontro com nós mesmos. Um sossego que achega como abraço de mãe. Eu não sei exatamente como se delineia: aparece por acaso diante de uma pocinha sobre a mesa, na casa vazia perdida no silêncio ou, quem sabe, na chuvinha mansa de uma hora qualquer… A paz nos visita e vem de braços dados com o contentamento. São visitas tão bem-vindas que as convidamos para morar mesmo sabendo que elas não vão aceitar. Abro a porta para que elas se vão, mas com a promessa de que irão voltar. E eu vou esperar com a certeza de que regressarão, pois paz e contentamento sempre rodeiam a nossa maturidade e as casas que por fora, refletem, o amor que sentimos por dentro.


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