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Gildete, a mulher que não tinha problemas

Impassível, ouvia as lamúrias dos colegas e fazia questão de frisar sua superioridade
Foto: Pixabay/CC

Gildete, a resolvida. Era assim que os colegas de trabalho chamavam, às escondidas, a mulher que sempre se gabava diante das desgraças alheias.

Não havia perrengue que afligisse Gildete, pois nas falas repetidas, incansavelmente, não tinha marido chato, pois era muito bem resolvida para ter homem em casa. Não suportava crianças, já que nunca quis ser mãe. Dispensava namorados mensalmente. Doença era coisa de gente cismada e, por isso, tinha uma saúde de ferro. Desemprego não conhecia, pois trabalhava no mesmo escritório há quase 27 anos e sabia controlar as próprias finanças.

Mesmo com a fama de insensível correndo empresa adentro, a novela “Gildete não tem problemas” nunca acabava. Afinal, sempre havia um novo colega que não conhecia a reputação da administradora ou um carente de plantão que, por falta de divã, despejava as lamúrias para a “resolvidona do departamento”.

A cena, então se repetia. O desafortunado da vez começava a contar a história e Gildete, de pronto, descia os óculos de aros vermelhos até a ponta do nariz, arqueava a sobrancelha esquerda e ouvia, atentamente, o desabafo. Enquanto o outro falava, Gil – como os colegas mais antigos a chamavam – concordava, lentamente, com a cabeça. Imagino que fazia isso para incentivar o locutor a continuar e pudesse, assim, coroar sua superioridade ao final do diálogo.

_Pois não é, Gildete? Minha vida é muito difícil! Amadeu, meu marido, está desempregado e Juninho, meu filho, está na faculdade com uma mensalidade absurda. Estou me desdobrando para pagar essas contas até as coisas se acertarem lá em casa. Um sufoco!

Gildete, enfim, dava o bote. Respirava fundo, como quem compadecida da colega, e dizia com os olhos cravados na “vítima” sufocada:

_Não faço ideia do que seja isso, querida! Desconheço desemprego. Não tenho filhos, pois sempre detestei “crionças”, como gosto de chamá-las. Marido? Deus, me livre! Nunca tive nada parecido a essa praga inventada pela sociedade. Chego em casa e sou recebida pela paz reinante do meu lar, sem outros seres humanos para me importunar. Uma maravilha! Lamento por você que tenha que passar por esse martírio.

Impassível, Gil virava as costas e abandonava o interlocutor na solidão de uma vida que, parecia naquele momento, tão medíocre.

De um lado ia embora o sofrido, levando na bagagem a falta de empatia da colega, mas do outro lado, estava Gildete, aparentemente acima do bem e do mal. A mulher que chegava em casa e vestia um camisolão preto de cetim, colocava no velho aparelho de som, os CDs do Amado Batista e que, vez ou outra, bebia calmante fitoterápico com vinho merlot. Ela que, aos sábados, ia no antigo restaurante português para conversar com Roberval, o garçom sessentão. O sujeito para quem contava todas as histórias do povo do escritório e que, ao final do expediente, a acompanhava lado a lado na calçada rumo ao apartamento dela. Gildete desejava há mais de onze anos assumir o namoro, mas ele dizia que era velho demais para isso.


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