Texto sobre a vida

Resiliência, pois nada dura para sempre

Se no outono as folhas caem, eu cultivo a primavera
Foto: Pixabay

Era uma segunda-feira ensolarada quando me deparei com as duas caídas ao chão: ali, lado a lado, como boas irmãs que sempre foram. Haviam partido há pouco, como quem acena adeus, pela última vez, na curva da estrada. 

Abaixei, para ver de perto aquela duplinha que tanto alegrara os meus dias e, diante da cena, sorri de um jeito triste, de quem sabe que não há nada mais por se fazer.

_Obrigada, meninas!_sussurrei, enfim, enquanto olhava para as duas flores da orquídea roxa, presente do meu último aniversário.

Eu, que estou longe de ser uma exímia florista, consegui fazer com que durassem de dezembro ao final de março, com louvor! Pesquisei na internet sobre como cuidar delas, adubei com fertilizante próprio e busquei um lugar que fosse claro, mas não recebesse luz direta. A planta agradecida, me respondeu com novas flores me dando a impressão de que algumas estavam lá firmes, coloridas e viçosas desde quando saíram do supermercado. 

O galho central, mesmo torto, me enganou com flores velhas e novas e eu não estava interessada em saber quem era quem. Bastava que existissem dando cor ao quintal! Agora, diante da morte de dois membros, dei-me conta de que as folhas estão murchas, umas amarelaram e, talvez, não só as pétalas, mas toda ela, esteja indo embora. Porém, não me dei por vencida! Tenho buscado um local onde ela fique mais feliz e, assim, sobreviva! Ora! Duas flores perdidas não são motivos suficientes para a queda de uma planta inteira!

Pois, minha gente, viver é essa coisa tola de ser agora e, logo depois, não ser mais. A dobrinha no braço do bebê, a tinta fresca na parede, o beijo cheio de tesão, a casa de quintal grande, o companheiro de uma vida. Tudo isso se dissipa! Vão mudando as caras, vão morrendo, se transformando, sendo outras. Aquelas pétalas exuberantes cujo prazo para existir, se esgotou, cumpriram seu papel. São agora alimento para a terra de uma outra planta.

A transitoriedade dá medo, já que vivemos diante da necessidade do hábito. Por que as belas flores não duram para sempre? Por que quem amamos vai embora? Por que os telhados são levados pelo vendaval? Belchior, músico e compositor cearense, na juventude, escreveu sabiamente: O novo sempre vem... Nada e ninguém é feito para durar eternamente! 

Não é prudente se revoltar pela morte das flores, mas sentir que a existência delas fez nossas vidas mais bonitas! Nem tampouco maldizer a vida, porque algo que nos trazia satisfação não existe mais! Viver é apreciar a brisa no rosto, mas saber que o nosso corpo é objeto vulnerável às tempestades. No entanto, a mente, essa sim: se resiliente e inventiva, é a única forma de nos salvar diante das impermanências

Se a vida é rio que corre, eu sou gota que, somada às outras, transborda. Se no outono as folhas caem, eu cultivo a primavera. Ressignificar, recomeçar, reordenar, até que o dia em que nós, também, passemos. 


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