texto sobre coronavírus

O que os tempos difíceis nos ensinam sobre a vida?

Seis lições que aprendi sobre momentos de pandemia e coronavírus
Foto: Andrew Taylor/Pixabay

Devido ao home office, há 61 dias não vejo o colega de trabalho que senta na mesa ao lado da minha, no escritório. Porém, conversamos quase que diariamente pelo telefone e nos “encontramos” nas reuniões virtuais do trabalho. Deixamos de ser os dois colegas que fazem piadas um do outro, para dois amigos que desabafam sobre a loucura que têm sido nossos dias diante da pandemia do coronavírus. Doença, aliás, que caminha muito perto de todos nós.

 

O mundo continua desigual e o coronavírus reforçou ainda mais esse triste cenário. Em Belo Horizonte, o maior número de casos registrados da doença estão em bairros nobres, mas isso não significa que só os “ricos” estejam doentes. O coronavírus está na periferia, mas sem o devido registro por falta de condições financeiras e de serviços de saúde pública que o confirmem.

 

Nos dividimos entre os que mantêm a rotina de trabalho e continuam saindo de suas casas; aqueles que trabalham remotamente fazendo de seus lares, escritórios; pais perdidos sobre como apoiar os filhos no ensino a distância; empreendedores cuja renda foi comprometida e os desempregados. O coronavírus impactou a todos: atingiu nossa saúde, nossos bolsos, machucou nossos corações e tem mudado a nossa forma de ver o mundo.

 

Nestes mais de dois meses em que a minha rotina mudou completamente, eu já rezei, meditei, fiz bolo, bebi vinho e surtei. Algumas vezes, fiz tudo isso em um só dia! Já me perguntei como posso ajudar as pessoas que estão passando por necessidades neste momento; se deveria mudar de profissão; se deveria voltar para o meu ex; briguei com pessoas queridas; continuei na terapia quando, um pouco antes do coronavírus chegar, eu acreditava que eu mesma poderia “me dar alta”, mas mudei de ideia assim que percebi o impacto que tudo isso estava causando na minha saúde mental.

 

Senti culpa por saber que vivo uma situação melhor do que a de muitos brasileiros, senti medo de que eu ou as pessoas que amo adoecessem, ensaboei os pacotes de arroz e pipoca e escolhi os canais que quero assistir na TV. Inclusive, decidi ver menos os noticiários.

 

E, diante de tantos sentimentos e experiências ambíguas, uma pergunta tem me ocorrido frequentemente:

_ O que eu não quero esquecer sobre uma pandemia?

 

Por isso, registrei abaixo seis aprendizados que, quem sabe um dia, serão como uma carta para os meus netos sobre esses tempos difíceis.

1) Sou vulnerável e passageira, tal como qualquer outro ser humano na face da Terra. Afinal, uma doença contagiosa não distingue cor da pele, conta bancária ou posição política e social. Ela assola a todos em diferentes níveis. Matou o engenheiro químico Sérgio Campos Trindade, de 79 anos, que fez parte do grupo de cientistas que ganharam o Prêmio Nobel da Paz pelos estudos sobre o aquecimento global e, uma senhora de 68 anos, em Porto da Folha, no interior do Sergipe.

 

2) Viver é verbo que se conjuga no presente e não se adia. Permanece em mim a vontade de celebrar a vida pelos encontros presenciais, vivenciar o mundo colocando os pés na estrada e deixar o coração aberto ao risco das minhas infinitas e particulares possibilidades. Por que esperar uma pandemia bater em nossa porta para entender que o segredo é esse? A vida é uma experiência que nos faz sorrir e chorar. E tudo bem!

 

3) Desigualdades e privilégios não desaparecem durante uma pandemia, por isso o nosso voto consciente e as nossas ações como cidadãos são extremamente relevantes. Contribuir individualmente para o bem coletivo precisa ser um comportamento inerente à nossa condição humana: isso não quero esquecer e nem deixar de praticar.

 

4) O amor ao próximo existe e brota, em forma de atitude, em todo lugar. Do conforto emocional de quem canta da sua sacada para alegrar os vizinhos aos grupos que coletam alimentos para serem doados aos mais pobres. Como diz a minha mãe: “Tem mais gente boa que ruim no mundo!” e eu escolhi acreditar nisso.

 

5) A arte é bálsamo para corações cansados, seja por uma live de um cantor; um livro; um poema; uma bela fotografia ou um desenho despretensioso.

 

6) E, por último: lembrar sempre sobre o privilégio que é a liberdade de ir e vir sem medo e sem culpa e o quão precioso é viver assim!


Copyright © 2020 I Cris Mendonça.O que os tempos difíceis nos ensinam sobre a vida? Todos os direitos reservados.

Comentários