texto sobre o olhar

Enxergar a vida lá fora pela janela da alma

Diante de mim, um lindo e imenso arco-íris, circundava a paisagem composta pela Serra do Curral, os bairros e as comunidades da zona leste de Belo Horizonte
Foto: Cris Mendonça

Sexta-feira à tarde e eu diante do computador, mergulhada no trabalho que tem sido feito em home office desde o  início da pandemia. De repente, sinto umas gotículas no rosto. Olho pela janela e vejo, ao longe, nuvens acinzentadas.

_Chovendo às vésperas do início do inverno?!_pensei, fazendo uma cara de espanto.

Levantei e fui dar uma espiadinha na janela, uma das minhas melhores distrações. E que bom: como sempre, não me arrependi de trocar, por alguns minutos, a tela de pixels pela tela do céu.

Diante de mim, um lindo e imenso arco-íris, circundava a paisagem composta pela Serra do Curral, os bairros e as comunidades da zona leste de Belo Horizonte. Da esquerda para direita, as setes cores em forma de arco começavam na parte nublada da serra e terminavam nas casas das comunidades, ainda iluminadas pelo Sol. Nestes tempos em que temos sempre uma câmera disponível à mão, fotografei. Registro feito, abandonei o celular e fui namorar a paisagem. O céu, a vista, a capacidade de enxergar e, sobretudo, a dádiva que é saber apreciar a beleza da vida nas coisas que, às vezes, nos soam tão costumeiras e banais.

Pensei nas mães das favelas, invisíveis naquelas janelas minúsculas; nas crianças presas em apartamentos, entediadas e carentes de socialização; mas, sobretudo: pensei em como as paisagens são alheias às pandemias e às crises. 

Conforme o pensamento vagueava, as cores do arco-irís desbotavam. Saí da janela e fui buscar uma xícara de café para aquecer o peito e a alma. Quando voltei, não havia mais o arco-íris. Tinham ido embora, as setes cores do céu. Conformada, voltei o olhar para a tela de pixels, concentrada no trabalho, mas, incansável em apreciar a vida pela janela da alma


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