texto sobre objetos antigos

Objetos antigos são coleções de memórias

Quem tem paixão por antiguidades, enxerga a história que cada item carrega
Foto: Pexels

Duas ruas acima da minha casa, há um antiquário reinando absoluto no bairro. A fachada, composta por uma janela central e uma pequena porta, soa modesta diante de toda riqueza que lá dentro se encontra. Luminárias de mesa, cujos metais moldados em formato de flores, um dia decoraram mesas de cabeceiras e presenciaram  noites de leituras e amores. 

Jogos de xícaras Termo Rey, hoje tão raras, mas no passado tão comuns nas casas das nossas avós.

Máquinas de datilografar Remington com teclados arredondados - um dia dedilhados por jornalistas, poetas ou escriturários, que registraram fatos, bens e sonhos, hoje adormecidos pelo tempo - estão ali, escurecidas e gastas, à espera de apaixonados pelo estilo retrô. 

Telefones de discagem nas cores preta, pérola e amarelo: tantas vezes utilizados como canais para confissões amorosas, notícias de morte, nascimento, ou simples informes sobre como estava o tempo, quando o assunto, enfim, acabava.

Relógios de corda, câmeras fotográficas de fole e pequenos rádios, com capa de couro, cuja missão  era informar o presente, mas hoje são peças que emanam o passado.

Biscuits de porcelana seminus ou de roupinhas coloridas, pintadas à mão: objetos de decoração preferidos pelas madames da época, cuidadosamente, ostentados na sala de estar.

Panelas de ferro e moedores de carne movidos à manivela utilizados para preparar refeições feitas para matar a fome ou celebrar um acontecimento especial. 

Malas antigas, feitas de couro, que cruzaram rodovias e céus e voltaram para casa carregadas de histórias e experiências. 

Itens que se, somados o tempo de existência de cada um, são facilmente mais velhos que os anos registrados após o nascimento de Cristo.

Seu Julião, dono do antiquário, me conta ter começado como colecionador, tornou-se um acumulador e, já aposentado, decidiu vender as peças e ter uma renda adicional. "Alguns têm medo porque boa parte de tudo que está aqui pertenceu a pessoas desencarnadas. Eu, ao contrário, gosto! Sinto que nunca estou só!". 

Eu, uma namoradeira de objetos antigos, saio do antiquário com uma malinha pequena de couro, já cinquentona. O motorista de aplicativo que me conduz após a compra, conta não gostar dessas coisas de gente morta. "Vai que eu compro um vaso e ele começa a flutuar sozinho!".

Rio da possibilidade. Será que a minha velha malinha vai ganhar vida própria? Tomara que ela me leve para viajar!

Se a maleta me conduzirá a Paris, eu não sei! Porém, na minha família, há um caso de objeto antigo que fala. Meu pai há pouco tempo me enviou um vídeo mostrando o fenômeno: um rádio modelo Capelinha, com caixa de madeira, botões arredondados e, danadinho, ainda trasmite notícias e músicas. Fala que é uma beleza!

O fato é: casas, taças de vinho, vestidos de festa, carros ou acessórios, novos ou velhos, são como todas as outras coisas inanimadas, meros objetos. Eles só fazem sentido, se estivermos ao lado de quem amamos. As peças antigas carregam, de forma invisível, as histórias e as pessoas que viveram no entorno delas. Nos contam sobre o passar da vida, sobre como tudo se transforma, sobre as necessidades e os desejos que durante uma época foram essenciais e , atualmente, não fazem sentido algum! Então, sim, o motorista de aplicativo tem razão: os velhos objetos podem se mover, mas... só dentro de nós!

Copyright © 2020 I Cris Mendonça. Objetos antigos são coleções de memórias. Todos os direitos reservados.

  

Comentários