texto sobre janelas

Pela janela, infinitas possibilidades, jeitos e gentes

A moça que dança no meio da sala, os carcarás que rodopiam no céu
Foto: Pixabay/CC

Amadureci, tornei-me adulta, pessoa ciente das tristezas e alegrias do mundo. Porém, não recebi essa informação por carta registrada e, tampouco, fui avisada por e-mail. Descobri a minha própria maturidade, quando percebi que tenho passado mais tempo nas janelas, observando a vida lá fora. 

Um dia, esquecida à própria sorte de um belo horizonte, percebi: eu havia me tornado uma mulher de janelas. E não me refiro às simbólicas, às da alma, às dos olhos... Falo de janelas, no sentido literal da palavra: quadradas, retangulares, circulares, cercadas por tijolos ou madeiras, antigas e modernas. Olhos e pulmões de uma casa: canais por onde se espia e inspira, como se fosse possível abraçar o mundo lá fora!

Neste exato momento em que escrevo - às 17h30 de uma quarta-feira - as nuvens carregam nuances de cinza, azul e lilás, enquanto o prédio, mais alto da rua, está pintado pela luz dourada de uma tarde que se vai. O trânsito está calmo - como tem ocorrido nestes tempos difíceis - e um carro de som, desce a ladeira, interrompendo a poesia do cenário. 

Ao longe, vejo as casas das comunidades, tão coloridas quanto os quadros de Tarsila do Amaral. Impossível não pensar em cada voz que está lá e, daqui, eu não posso ouvir.

Desta mesma "janela lateral do quarto de dormir", vi uma moça dançando no meio da sala; um velho dormindo no sofá; um vestidinho junino tomando sol na grade do quarto; a serra e as crianças brincando na rua. Contemplei, encantada, dois carcarás rodopiarem, enquanto bicavam um ao outro, entre sons que jamais poderei dizer se eram de briga ou brincadeira.

Aos desavisados, é preciso dizer: pela janela, não é possível tirar conclusões. Há de se observar a vida e suas infinitas possibilidades, jeitos e gentes, como se estivéssemos assistindo um filme de Woody Allen, ou quem sabe, dramas de Almodóvar. 

A vida, vista pela janela, é bonita porque são como os quadros que a gente escolhe para decorar a sala: existem conforme a nossa interpretação. E, pelos olhos de minha janela-alma, todo cenário é belo, porque toda cena conta uma história inventada!


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