texto sobre casas antigas

Casas antigas não falam, mas se lembram

A escrita pisada e repisada, gritava sem jamais ser ouvida, que todos ali passariam, menos ela!
Foto: Johannes Plenio no Pexels

Se viu sozinha naquele cômodo ancestral, de portas eternamente abertas. Por ali passaram avós, tios, primos e amigos, cujas palavras - um dia proferidas - caíram sobre a terra e alimentaram as plantas na horta. Talvez, por isso, todas elas estavam tão verdes e viçosas. Haviam ouvido por décadas as falas e as risadas daquela família peculiar, se alimentaram das alegrias, secaram com os medos e refloresceram com a fé dos que pisaram aquele chão por puro afeto.

Enquanto a mangueira floria e dava frutos, indiferente aos ventos e tempestades, na mesa grande e retangular de cedro, cercada por oito cadeiras, dividiram o pão e a angústia, a raiva e o abraço, o adeus e a chegada em um constante ir e vir da vida.

Assim como abriram e fecharam, milhares de vezes, a porta da sala, cujos arabescos enferrujados foram repintados conforme o espírito da casa, para que conhecidos fossem embora para nunca mais voltarem e estranhos entrassem para ficarem por décadas.

E, conforme tudo mudava o tempo todo, a cor da tinta na parede, a pele da menina ficando moça, os cabelos fugindo da cabeça, as barrigas das mães de primeira viagem - as iniciais de A.J.L, desenhadas na pedra que dividia a sala do alpendre, permaneciam intactas como que zombando da vulnerabilidade humana ao tempo. A escrita pisada e repisada, gritava sem jamais ser ouvida, que todos ali passariam, menos ela!

O céu de incontáveis estrelas servia de véu fino e transparente para a platibanda, enquanto a madrugada parecia sussurrar pela cidade que, nas camas dos quatro quartos, repousavam serenos, os vivos e os mortos, em cega harmonia. E assim, quando raiasse o novo dia, caminhos seriam seguidos por diferentes ruas, mas terminariam no mesmo destino: o trabalho como meio de sobrevivência, a religião como bálsamo para as durezas da vida e as refeições como recompensas divinas.

Cupins comeriam o banco de madeira, a chuva reduziria a pó os canos de ferro, a ventania levantaria telhas esculpidas nas coxas e as crianças crescidas se casariam para tornarem-se 12, 28 e 117, até que um dia, inevitavelmente, não fossem mais nem uma.

Mas, aquém das casualidades, as paredes construídas com tijolos duplos, as janelas de madeira e as letras cravadas no chão permaneceriam um pouco mais que todos eles e, guardariam em suas estruturas, histórias mudas que ninguém mais contaria: a moça que abandonada pelo noivo, em pleno período da Segunda Guerra, se matou; o gato preto chamado Trovão; a banheira de ferro fundido; os potes de doce no armário de madeira; a cristaleira com seus mimos intocáveis; a máquina de costura movida a pedal e a bolsa de couro preta, que era guardada na gaveta entre lençóis alvejados, tornaram-se tatuagens invisíveis daquela velha senhora, cujos ossos eram feitos de tijolos e a pele composta de barro.


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