texto sobre café

O segredo de um bom cafezinho

A bebida que desperta paixão e memória afetiva, gera trabalho, renda, e tem lá os seus mistérios
Foto: Tom Swinnen no Pexels

Nos finais de semana em que o sol está a pino, minha amiga de infância, vez ou outra, me manda uma mensagem, dizendo:

_Que calor! E, mesmo assim, eu vou tomar café! rs

No que eu, de imediato, concordo. Juntas, dividimos o gosto pelo cafezinho passado na hora, faça sol ou faça chuva! Coisa de mineiro, criado no interior, que vê o café como um velho amigo: está sempre em nossas casas, seja nos momentos de tristeza ou alegria; passado na hora para nos despertar para o dia, servido para aquecer a alma, oferecido para dar as boas-vindas ou acompanhado de um biscoito frito para encher a casa de alegria.

Na casa de minha avó materna, três pés compunham o cafezal familiar: deles, dona Maria tirava os grãos, os torrava, guardava em uma lata e os moía somente na hora de coar. Vez ou outra, meus primos e eu brigávamos para saber quem iria manusear o moedor, afixado na beirada da mesa, que parecia ter sido colocado ali, exatamente, para a nossa altura. Os grãos triturados exalavam um perfume que até hoje me leva aos dias da infância. Se afeto tem cheiro, o do café, com certeza, é um desses aromas que nos transportam para as lembranças que remetem ao sentimento de acolhimento. Café até parece gente: tem dia que ele vai bem sozinho, mas em alguns momentos, necessita de companhia. E, nas duas situações, ele sempre cai muito bem!

Na casa dos meus pais, o velho café Centenário era a marca mais comum. A antiga embalagem, com um selo amarelo, nos dava sempre o bom dia antes de, meus irmãos e eu, irmos para a escola. Foi nosso colega por anos a fio, até que um dia eu cresci e degustei outros sabores. Cada pacote comprado no supermercado refletia minha fase de vida: recém-chegada em Belo Horizonte e em busca de emprego, as marcas mais baratas eram servidas sem reclamações. Os anos se passaram, a vida ficou um pouco mais fácil e o café recebeu seu devido reconhecimento. Ora! Se a vida fica menos dura, a bebida que nos acompanha na primeira hora do dia, torna-se também mais suave. No meu 13º ano de cidade grande, comecei a trabalhar em uma entidade da agricultura e o universo do café se expandiu: deixou de ser unicamente o alimento servido à mesa, para se tornar símbolo de trabalho, elemento que une uma infinidade de pessoas que fazem dessa bebida escura, trabalho, paixão e renda. Porém, mesmo que eu esteja diante de respeitados cafeicultores, baristas e degustadores, todo e qualquer café especial – ainda que premiado – mantém o elemento essencial: o cheirinho que me leva à casa dos meus avós.

Na mesa posta, de tecidos bordados e xícaras de porcelana, no copo americano servido no botequim da esquina, ralo ou forte, doce ou amargo. No pingado, acompanhado de um tantinho de leite, ou requentado por falta de condições financeiras, o segredo de um bom cafezinho vai ser sempre o amor. Sentimento que não está na dose ou no feitio, mas no exato momento em que o saboreamos. Em alguns dias, o café, mesmo amargo, desce doce; às vezes ralo, desce forte.

E você, aceita um cafezinho?


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