texto sobre criança interior

Se criança é rio, adulto é mar

As curvas se alargaram e estreitaram, as águas se encheram nas tempestades e diminuíram na seca
Foto: Jan Prokes no Pexels

Há menos de um quilômetro da casa da minha avó materna, passa um rio: largo e raso onde se vê a areia dourada. Sempre que o vejo, agora adulta, tenho a impressão que na infância ele parecia maior. Quando somos crianças, tudo é grande! Ficamos nas pontas do pés para escovar os dentes diante da pia do banheiro, a janela da casa velha parece ficar tão distante do chão e o quintal é do tamanho do universo… Mais do que uma questão de proporção, por sermos, literalmente, pequenos diante do mundo, para uma criança tudo é grande, pois em cada canto cabe sua imaginação. Correr é como ter asas, pular é voar e alcançar é como derrotar um vilão. A vida é lúdica e não cabe na realidade matemática!

Porém, um dia crescemos: por dentro e por fora. Chegamos à conclusão que imaginar mais do que concretizar pode ser arriscado. Quem sonha com a casa própria, precisa trabalhar, já que, infelizmente, não é tão simples como fazermos uma casinha de bonecas. No entanto, cá entre nós: quanto da criança que você foi, realiza os sonhos que você tem hoje? Eu acredito que uma boa parte desses meninos e meninas que fomos, vive em tudo que conquistamos. Nos adultos chatos que nos tornamos, moram os pequenos desbravadores: a aptidão para o desenho transformou-se em designer; o gosto pelas roupas de boneca se transformou em moda; o desmonte dos brinquedos em mecânica; o faz de conta do escritório, no próprio negócio. Somos uma casa, feita com tijolinhos de meninice. Cada elemento dessa construção que somos hoje carrega os sonhos, as alegrias e as dores de algum momento da infância. Por isso, psicólogos dizem que é preciso acolher a nossa criança interior, olhar para ela com amorosidade e confidenciar que seguimos adiante da melhor forma que conseguimos.

O rio da minha infância continua lá, mas diferente, porque de fato, eu também mudei. As curvas se alargaram e estreitaram, as águas se encheram nas tempestades, diminuíram na seca e as areias que correm na profundidade não são mais as mesmas. Às margens das águas que correm, plantas nasceram e morreram, curvaram-se e quebraram-se… Se a criança que fomos é rio, o adulto que nos tornamos é mar. 


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