texto sobre leveza

A melhor parte da vida é off-line

Fora das telas, existe uma infinidade de simplicidades que recarregam a alma
Foto: Maksim Goncharenok no Pexels

Em uma rua próxima de onde eu moro, existem dois coqueiros que fazem a alegria das maritacas. Logo cedo, ali pelas 6h e pouca da manhã, elas começam a balburdia. Tagarelas, voam pra lá e pra cá, comendo os coquinhos. O café da manhã delas aliado às primeiras luzes que invadem meu quarto, são o meu bom dia! Claro, às vezes reclamo. Quero dormir mais e, em outros dias, nem acordar. Confesso! Porém, eu que tenho minhas raízes no interior, considero um privilégio ouvir cada passarinho que canta na cidade grande. Minha alma tem uma conexão profunda com a natureza e com a vida que existe ao ar livre.

Entre paredes, na falta de uma varanda ou quintal onde se coloque o corpo e o espírito lá fora, cada som ou gesto que nos tire das gaiolas de concreto, é um alívio.

Nestes tempos em que estamos sempre de cabeças baixas, voltados para as telas, desviar o olhar para aquilo que está adiante ou acima, soa quase como um gesto de pessoa romântica. O mundo off-line parece fora de moda! Baixamos um aplicativo para ouvir sons da natureza e nem percebemos que pela manhã tem passarinho cantando, tem raio de sol cruzando a janela do carro ou uma folha seca caindo de uma árvore em plena avenida. São cenas simplórias que nos aliviam, por alguns segundos, e temperam o nosso dia com poesia.

Em Belo Horizonte, há uma pista de caminhada que fica ao lado do rio Arrudas, poluído e pavimentado. Enquanto ele corre lá embaixo, cinza e triste, árvores aliviam o entorno. São de diferentes tamanhos, exibindo sementes e flores, ao longo da via. Quem chega para atividade física ali por volta das 18h, olha adiante e vê o dia indo embora, colorindo o céu com nuances de laranja e lilás. Não posso mentir: a selva de pedra e o trânsito enlouquecido também compõem a cena. No entanto, eu que nasci com a Lua em Libra, prefiro o belo que habita a cena. São esses respiros de consciência que amenizam a minha ansiedade, o estresse e o medo que tenho de um amanhã incerto.  

Todos os dias nos salvamos feito um beija-flor pousado no fio a observar uma árvore. Decerto, ele procura por flores, pois sobrevivência e beleza fazem parte da vida. Assim somos nós! Por isso, os museus recebem visitas, os músicos têm público e as paisagens são admiradas. Cozinhar é prova de afeto, tomar um café passado na hora é prazer, cuidar das plantas é terapia e passear com o cachorro é gesto de amor. Cada onda que chega na praia, cada flor que nasce entre o cimento, cada brisa que nos toca a face, é alimento espiritual para os dias em que a alma padece. Ouso, inclusive, dizer: não se deve esperar a alma adoecer, antes disso, tome doses da parte boa que é a vida real.

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