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A nossa cor original e como nos sentimos em outras tonalidades

Foto: Pixabay/CC

Horário de almoço: abro meu celular e vejo no WhatsApp a fotografia de um papel escrito à mão. No traço fino do lápis, a letra caprichada dizia:

“Querido camaleão,
A cor rosa é linda, não mude só porque as pessoas querem."
Maria Clara

O recadinho é da minha sobrinha, de sete anos de idade, que havia recebido uma tarefa escolar: escrever uma mensagem para o camaleão que, um belo dia resolveu passear usando a cor rosa, mas ao encontrar com outros bichinhos, recebia sempre o conselho de se camuflar com outras tonalidades. 

A tarefa de Filosofia convidava as crianças a pensarem a respeito de como o mundo, por vezes, nos leva a abrir mão dos nossos sonhos e características. A publicidade, as mídias sociais, os amigos, a família e os colegas de trabalho, inevitavelmente, têm influência sobre o que somos, mas existe, bem ali no nosso íntimo, a nossa essência, aquilo que não deveria ser negociável, pois faz parte da nossa identidade. Nossas cores originais parecem desbotar diante das ventanias e sóis alheios, como se o mundo quisesse nos dizer que tudo – essencialmente nosso – precisa mudar!

Resgatar o que somos, nossos valores e desejos, às vezes, leva tempo. Na infância somos o que somos: não titubeamos em nos mostrar, mas conforme vamos sendo socialmente ajustados, aprendemos a omitir, silenciar e reprimir. Essa anulação vai nos custando a paz até que, enfim, amadurecemos. É como se nascêssemos com um lindo colar de diamantes pendurado no pescoço e, a cada experiência, atirássemos uma pedrinha pelo caminho. De repente, nos damos conta que nosso colo está nu ou decorado com algumas poucas pedras. E, então, olhamos para trás: perder algumas pedras era necessário, pois elas pesavam. Porém, algumas outras nos iluminavam. Damos um passo atrás, recolhemos o que faz  sentido; voltamos a seguir adiante.

Se no pescoço, o colar de diamantes foi sendo reajustado, se escolhemos o rosa para passear por aí, se na vida gostamos de colo, casa e companhia, ou optamos por malas e viagens, tudo só faz sentido se nos traz paz interior. O que não significa, necessariamente, calmaria; mas o sentimento de que vale a pena. 

Não é possível negociar o que, essencialmente, somos. Custa caro abrir mão de nós em nome de quem não deseja nos conhecer, genuinamente, ou ainda, por algo em que não poderemos nos reconhecer. 

A questão é que não existe uma receita de bolo com as medidas exatas dos ingredientes, abraçar quem somos é algo que só se aprende vivendo. O camaleão muda de cor conforme os ambientes, mas ele não deixa de ser camaleão. É sobre saber qual é a nossa cor original, mas também como nos sentimos em outras tonalidades


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