reflexão

Espia o tempo

Não conte para ninguém, mas desconfio que o tempo corre quando não estamos vendo. O relógio nos engana num tique-taque hipnotizante. Enquanto o ouvimos, lerdo e vagaroso, a água ferve, o leit
Foto: cdd20 / Pixabay

Não conte para ninguém, mas desconfio que o tempo corre quando não estamos vendo. O relógio nos engana num tique-taque hipnotizante. Enquanto o ouvimos, lerdo e vagaroso, a água ferve, o leite derrama e as pessoas dormem crianças, mas acordam velhas.

Alheio aos dias do calendário, o sol se põe antes de piscarmos e as flores murcham, cinco minutos depois de florirem.

Os seus dedos não percebem. Os seus olhos não acompanham. Mas há um bichinho invisível roendo tudo o tempo todo. Aqui e agora. Silencioso. Desbotando as cores do seu vestido preferido, desfiando as meias, roubando o brilho das fotografias e enegrecendo as pratarias.

Enchendo seu coração de certezas e dúvidas permanentes, os cabelos de cor branca ou de tinta espessa, seus filhos de palavras, seus diários de histórias, sua vida de sorrisos e lágrimas.

Caminhando em torno da casa, com a velocidade ainda desconhecida de uma luz, o tempo gasta e desgasta num círculo infinito. Fazendo velho o que acaba de nascer. Descobrindo sempre, e diariamente, aquilo que já foi sabido por outro alguém. Reduzindo todo amor, mágoa ou raiva, a um nome arquivado. Rememorado, com sorte, pelos seus bisnetos.

Mas, eu apenas desconfio. E, enquanto não tenho certeza, mais de trinta anos se passaram em uma tempestade de areia que consumiu meus sapatos de número 18, meus dentes de leite, a escrivaninha de mogno, o portão de ferro que rangia, o cachorro peludo e branco, as garrafas quebradas no bar da esquina, a camisola amarela com um desenho de meia-lua e a avó rechonchuda que sempre dizia: “Espia!”.

É o tempo levando...levando...levando...

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