memória

Hortelã: cheirinho de amor de vó

E eu sentia a fragrância mentolada, mas também um cheirinho de amor de vó! Um perfume que não se desfaz com o tempo, ainda que hoje ela more no Céu
Foto: Pixabay

Minha avó tem cheiro de hortelã, perfume que sentimos quando maceramos as folhas com as pontas dos dedos e o aroma parece nos impregnar de dentro para fora! Do coração para o olhar...

Era assim que ela fazia quando eu, ainda menina, ia a casa dela pedir umas folhinhas para fazer chá. Com o seu corpo rechonchudo caminhava até a horta, que de tudo um pouco tinha – de taioba a abacateiro – e puxava uns raminhos para mim. Ela então apertava as folhinhas com o dedo e me dizia:
_Cheira!

E eu sentia a fragrância mentolada, mas também um cheirinho de amor de vó! Um perfume que não se desfaz com o tempo, ainda que hoje ela more no Céu. Por isso, conjugo o verbo no presente porque a hortelã continua sendo o perfume dela. Aroma de vó que cultivava hortinha no quintal e nos dava doce de leite cortado em pedaço acompanhado de água servida na caneca de alumínio. Vó de Luz que nos corujava, vó de memória boa que orgulhosa nos contava “de cabeça” a data de aniversário dos 12 filhos e dos mais de 20 netos. Vó saudosista que morava no seu próprio passado e nos contava histórias da sua gente antiga. Vó que me dizia: “Espia!” passando a mão no queixo sempre que queria chamar a minha atenção para uma coisa boa.

Se os sentidos são como uma máquina do tempo que nos leva ao passado, toda vez que tomo chá de hortelã ou macero as folhinhas, repetindo o gesto de antes, essa minha avó coruja me abraça novamente. Sinto seus braços gordinhos, revejo seu vestido azul com três botões e mangas curtas, seus cabelos grisalhos ajeitados em uma presilha, seu andar lento e cambaleante e seu afeto rasgado em palavras. 

Vestida de hortelã, essa memória me visita e mareja meu olhar: tantos anos já se passaram sem a sua presença física, tantas coisas já vivi e quantas histórias minhas eu gostaria de te contar, mas a certeza de que você me vê – mesmo que invisível aos meus olhos – me conforta. Então, minha querida vó, cuide da sua hortinha aí no Céu, enquanto eu semeio nossas lembranças aqui na Terra. Minha saudade  segue com o teu cheiro...


Copyright © 2019 I Cris Mendonça. Hortelã: cheirinho de amor de vó. Todos os direitos reservados.

Comentários